Agência Fapesp
Quando são
mantidas por longo tempo em cultura, as células-tronco embrionárias humanas
apresentam alterações cromossômicas que podem comprometer as condições ideais
para aplicações terapêuticas, de acordo com um amplo estudo internacional
realizado com participação brasileira.
A
pesquisa, que foi capa da edição de dezembro da revista Nature Biotechnology,
analisou 125 linhagens de células-tronco embrionárias humanas e 11 linhagens de
células-tronco pluripotentes induzidas. O objetivo era identificar possíveis
mudanças genéticas em culturas in vitro ao longo do tempo.
O trabalho
foi coordenado pela International Stem Cell Initiative (ISCI), que envolve 38
laboratórios de todo o mundo, incluindo o Laboratório Nacional de
Células-tronco Embrionárias (LaNCE), do Instituto de Biociências (IB) da
Universidade de São Paulo (USP), coordenado por Lygia da Veiga Pereira.
O grupo do
LaNCE obteve, em 2008, a primeira linhagem de células-tronco desenvolvida na
América Latina, a BR-1, cujas amostras foram agora utilizadas no estudo da
ISCI. Além de Pereira, o estudo teve a participação de sua orientanda Ana
Fraga, que cursa doutorado no ICB-USP com Bolsa da FAPESP.
Segundo
Fraga, a maior parte das linhagens permanecia normal por algum tempo, em
relação ao cariótipo, o conjunto de cromossomos. Mas, ao longo de um período de
seis meses em cultura, as células apresentaram uma tendência progressiva a
adquirir modificações, afetando os cromossomos 1, 12, 17 e 20.
“Nem todos
os genes envolvidos nessas alterações cromossômicas são conhecidos. Mas sabemos
que o cromossomo 20, por exemplo, tem um gene importante relacionado à morte
celular. Será preciso testar, a partir de agora, até que ponto essas
modificações poderiam gerar efeitos colaterais em aplicações terapêuticas”, disse
à Agência FAPESP.
De acordo
com a pesquisadora, já se sabia que as células cultivadas apresentam alguma
instabilidade, passível de comprometer sua aplicação em terapias. Mas pela
primeira vez as mudanças cromossômicas em células mantidas em cultura por longo
tempo foram confirmadas por um estudo robusto.
“A
vantagem deste estudo é que ele reuniu análises de mais de uma centena de
linhagens de células-tronco embrionárias provenientes de diferentes origens
étnicas. E tudo isso foi realizado de forma muito rigorosa, sob os mesmos
parâmetros, no mesmo laboratório, com os mesmos protocolos de pesquisa e mesma
metodologia”, disse.
Fraga
explica que o DNA extraído de células das linhagens das várias partes do mundo,
incluindo a BR-1, foi enviado para análises epigenéticas em Cingapura. Um lote
de células congeladas seguiu para o Reino Unido, para a realização de análises
citogenéticas.
Existe a
possibilidade de que as alterações sejam selecionadas pelas atuais condições de
cultivo das células. “Essa hipótese será testada em estudos futuros. As
modificações, no entanto, não significam necessariamente que o cultivo
inviabilize as aplicações terapêuticas das linhagens”, disse.
Aplicação
e efeitos: Ao cultivar células-tronco embrionárias humanas, os cientistas “imitam”
a metodologia utilizada para a análise de linhagens de células de camundongos.
O que os estudos mais recentes estão mostrando, segundo Fraga, é que as células
humanas não se comportam exatamente como as células murinas.
“Quando fazemos um modelo animal, as variações podem não fazer tanta diferença para o experimento. Mas em células humanas precisamos nos aproximar o máximo possível das condições in vivo, pois os resultados serão aplicados em terapias”, disse.
“Por isso,
há uma preocupação com as alterações que observamos, mas acho que os resultados
não são alarmantes, nem significam que a aplicação terapêutica dessas células
terá de fato efeitos colaterais. Apenas confirmamos que é preciso aprofundar os
estudos sobre soluções ideais para o cultivo de células-tronco embrionárias”,
completou.
O artigo
Screening ethnically diverse human embryonic stem cells identifies a chromosome
20 minimal amplicon conferring growth advantage, de Lygia Pereira, Ana Fraga e
outros, pode ser lido por assinantes da Nature Biotechnology em www.nature.com/nbt/journal/v29/n12/full/nbt.2051.html.
Fonte: Estadão
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